09/02/2010



Todos os caminhos levam a Roma. E meus pés estão doloridos destas pedras frias, pontudas. Já pensei em fugir, mudar de rumo, tentar novos caminhos, e todos me levam ao mesmo lugar. O lugar nenhum, lugar comum. Quisera um caminho de grama macia, árvores de sombras frescas e chuva fina no alto da tarde, mas meus caminhos foram traçados em sertões áridos. À sombra de uma pedra seca eu posso descansar até que o sol me encontre e meus pés aguentem mais um pouco. À sombra de qualquer noitada posso descansar minha mente em entorpecentes. E cansá-la mais e mais para a ressaca da caminhada seguinte. Quisera um caminho que me tirasse da rota, que me levasse a novidades. Mas todos os caminhos levam a Roma... E é aqui, justamente onde não queria chegar. Aqui, onde o vento parece de chicotada e a chuva de castigo, onde o café amarga e o cigarro arranha. Aqui onde os blues não são tão lentos. Quisera um lugar melhor, maior. Mas o que me resta é este gosto de mofo na boca. E essa vontade de! Essa vontade de descobrir um motivo. Ou fugir da necessidade de motivos... Encontrar a ausência de excessos e perder esse excesso de ausências. Parafrasear menos, criar mais. Ter o que criar. Num caminho que não me leve a lugar algum, que apenas me dê a possibilidade de:

A possibilidade de não chegar em Roma.

27/01/2010




Na última vez que morri, vinha de jangada por um rio lodoso. Lembrava dele vistoso, cheio e brilhante, azul quando o sol estava a pino, laranja vermelho rosa ao fim da tarde, quando o sol batia de lado. Mas ele não era esse rio, era uma água suja que escoava naquele mesmo lugar. Nas folhas de antigo verde, percebi uma tristeza em respirar, as folhas grandes, outrora maiores que eu, então já findavam na escassez de fotossínteses decentes.
Os sapos que coacharam melodicamente em outros dias, agora choravam lamentavelmente, em coachados tristes e desesperados. A guerra civil havia transformado tudo, nem mesmo as hienas riam agora. Na encosta do rio, onde antes foi uma margem, a jangada arranhou o lodo raso e parou. Peixes e sapos, pequenas rãs, se debatiam na água pouca, tentando subir a correnteza. Noutros tempos, subindo por dentro d'água, era possível se alimentar e procriar à vontade. Mas não hoje. Hoje não é tempo de satisfação. Entre os peixes agonizantes,garças sujas procuravam o que comer. De penas empretecidas, as garças bicavam em desespero, com sons de lamúria.
A resistência enfraquecia, enquanto a guerra aumentava, e a mantança me assustava. Nunca a vilania foi tão popular, tão aplaudida. Nem em antigos livros de história, quando se falava em escravos e torturas, em presos políticos e pretos amarrados, quando se via povos em campos de concentração, se viu tanto sangue. Um sofrimento latente, quase habitual, me verteu lágrimas de agonia, quando vi que até o que era selvagem se contorcia em guerra, pela vida ou pelo poder, todos estavam em guerra. Lágrimas grossas se misturava ao lodo e um tigre, como aqueles que se via em fotos antigas, de animais que há gerações não se via, a não ser em fotos antigas, corria entre as garças tristes, os peixes desperados e os sapos lamuriosos. Corria de fome, dava patadas no ar, me viu com olhos famintos e quis se alimentar. Nada mais natural que ter fome e querer matá-la. Ao tentar correr caí no lodo escorregadio e pensei que ele poderia acertar a jugular, já que sofrer mais ainda era instintivamente evitável. Não vi onde ele atacou, ou como atacou, mas vi que, de longe, eu morria. E morria mesmo, sem entender ainda porque tão jovem. Talvez não tão jovem, mas ainda com vontades juvenis. Vontades utópicas de sonhos juvenis. Coisas que sabia impossíveis, às vezes chatas, mas ainda sonhadas. E alguém me explicou que, já que eu queria tanto, e inúmeras vezes cheguei a tentar e pedir, resolveram adiantar o processo e acabar logo com isso. Não que me atendessem o pedido, mas já que estávamos ali... Um tigre faminto e um mamífero que, apesar de magro, ainda tinha carne e gordura suficientes para alguns dias de fuga. Um tigre de verdade, talvez o último, ou penúltimo, e um humano, agora tão numeroso e perigoso, que melhor seria perder alguns. Por que não este? Foi o que me perguntei e foi o que me responderam: Por que não este?
Não doeu, não houve luz em túneis, mas houve uma certa explicação intangível, como quando chegamos tão perto da verdade que quase a vislubramos, mas não vemos nada além do que habitualmente vemos, mas com compreensão tão superior que assuta. Como se visse alguma coisa que, apesar de não visível, sabia que estava. Ou era, não sei bem. A verdade é confusa, como cabelos na água. Não se sabe onde começa ou termina, ou como é, ou como explicar, mas sente-se forte e viva, pulsante, uma verdade no ar. E ela estava lá, não me pergunte.
Ver daquele jeito me fez ver que não tinha o que ver. Foi como ver novamente, numa fazenda onde uma negra forte cozinhava para peões, a lama limpa, porque só de terra, entre os dedos do pé descalço. E já então não sabia onde estavam minhas botas, ou se algum dia tive botas e as descalcei, e continuei ali. Percebendo bem no fundo, perto de onde se diz ser superficial, que a verdade é que o mundo estava em guerra. Sempre esteve, como vemos hoje, veremos no vigor da vida e na velhice, como veremos depois da morte. Viver é guerrar, guerrear até o infinito sangrento do fim, quando então toda a guerra se mostrará últil a um fim ainda indeterminado, e tudo fará tanto sentido que não saberemos o que fazer com a luz na cara, então recomeçaremos. E recomeçaremos e recomeçaremos e recomeçaremos até começarmos a perceber que a utilidade da guerra é nos fazer ver que a guerra é inútil. Inútil em sua idéia, em sua prática, em seu objetivo.

23/09/2009


É preciso vigiar sempre. Não cair na rotina, não se entregar à loucura, não desistir. É preciso vigiar o tempo inteiro, pois as tentações são grandes. A cama é macia, o cobertor é quente, a televisão ajuda a abstrair. É preciso não baixar a guarda, para não se entregar ao ostracismo perigoso da inércia. É preciso agir! Agir! Como se houvesse amanhã, como se o futuro nos esperasse. Não importa para onde, não importa o porquê, é preciso apenas se movimentar, manter o cérebro e as mãos ocupados. Parar é perigoso, você pode pensar neste momento. Pensar é perigoso, você pode parar neste momento.
Mecanicamente é preciso viver, trabalhando, estudando, saindo, bebendo, sem nunca se aprofundar. Superficialmente é mais fácil agüentar. Sem metafísicas, sem existencialismos, sem filosofias. Sem consciência sócio ambiental é mais fácil agüentar. Torcer o nariz para a miséria, ignorar a falta de sentido da vida, esquecer que vamos morrer. Imaginar o tempo como um agora, não como um antes ou depois. Viver pelo já. O amanhã a deus pertence, e ele não divide. Vestir o que se tem à mão, comer o que se tem à boca, ir onde se tem à frente. É preciso não pensar em nada que não seja fútil e superficial. Desviar da lama que puxa para baixo, para o profundo dos questionamentos humanos. Deixe a filosofia para os filósofos, viva como bom cidadão.

17/06/2009




Te amo, como se amar fosse...
Como se amasse, amassado, amarrado.
A Maria, se amasse, amarraria.
Se amasse, amaria.

O ódio,
com todo o carinho,
com cheiro de enxofre,
exorcizo.

Do amor, dou amor.
Dôo amor.
Dor.
Da carne, aberta, alerta
do coração à coroação,
dôo amor.

Dôo sangue, órgãos, vida.
Dôo agasalhos, sapatos, comida.
Dôo amor.
Dor de amor não é com amor que se cura.
Dor de amor, secura?

21/02/2009




Isso, prevaricado leitor, é um romance policial. Descarte-o depois de ler, se só os clássicos lhe apetecem. Ou guarde-o, se lhe interessar relê-lo. Acontece que temos um criminoso, um mocinho, um romance e um crime. Com sangue, dor e tudo o mais que um crime pede. Não é um crime premeditado, mas também não é bala perdida. É crime acontecido, acontecendo, inevitável. Cabe a você, decepcionado leitor, descobrir o crime, o criminoso, o mocinho e o romance. Eles se mesclam numa história chata, repetitiva. O crime não é um fato, não é um acontecimento. O crime, desistente leitor, é viver.


21/12/2008

A aberração social.




Tem tanta coisa que eu preciso falar e sei que você não quer ouvir. Tem tanta coisa... É estranho, pra mim, saber que eu gosto mais de você do que você de mim. É como um esgar de anzol na boca, uma loucura de descobrir o motivo porque você não gosta de mim tanto quanto eu gosto de você. Não é lógico termos a mesma intensidade de intenções? Não pra você... Você não se importa. E eu me importo demais. Eu preciso, eu sinto falta. Você se diverte. Os olhos postos sobre qualquer coisa, o estômago querendo sair... Os fantasmas nos seguem em qualquer lugar, mas você não se importa. Você se diverte. Eu nunca sei o que me interessa de verdade, e você muda de interesses rapidamente. Quando eu percebi que me interessava por você, você já tinha mudado de interesse. Quando eu me voltei pra você, você já tinha me voltado as costas. Seu egoísmo não te deixa ver que eu preciso. Você é preciso na sua imprecisão. Você não se importa. Eu me importo demais.
Você tem fases e faces, todas egoístas. Você não se importa.
Eu não tenho surpresas pra você. Eu sou chato mesmo, te procuro, insisto, brigo e faço drama. Você se diverte. Eu não choro escondido, não corto os pulsos, não arranco os cabelos. Eu sinto sua falta e isso te basta. Você finge que lembrou de mim, mas isso não me basta. Eu esperava que você sentisse minha falta, mas eu não faço falta. Eu posso estar aqui ou longe, não faz diferença. Não pra você. Eu posso estar aqui ou longe, pra mim também não faz diferença. Sempre tem alguém, sempre tem você. Você não precisa ter nome ou rosto, você sempre está aqui. Mesmo quando está longe, você está aqui. Fazendo-me falta, mesmo quando está aqui.
Você devia ir pra longe. Você devia morrer. Não faria diferença, não pra você. Não pra mim. Você não é um, você é todos. Você vive em mim quando eu tento fugir. Você me alcança onde quer que eu chegue. Você me persegue porque eu sou você, e eu já não sei mais o que digo... estou me perdendo em mim. Estou me perdendo em você, dentro de mim.

13/12/2008

Bem-Querer



E quando o seu bem-querer dormir
Tome conta que ele sonhe em paz
Como alguém que lhe apagasse a luz
Vedasse a porta e abrisse o gás.